Especial 17/08/2016 - 19:10:23
Entrevista com Poliana Amorim sobre violência doméstica e Lei Maria da Penha
Psicóloga explica a importância da denúncia e do acolhimento nos casos de abuso

Poliana Amorim, em palestra para estudantes organizada pela Esmal. Fotos: Itawi Albuquerque / DicomTJAL Poliana Amorim, em palestra para estudantes organizada pela Esmal. Fotos: Itawi Albuquerque / DicomTJAL
Violência doméstica é debatida com estudantes de escola pública

    A psicóloga Poliana Amorim, que atua no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) do bairro Benedito Bentes, na capital, foi convidada pelo Programa Cidadania e Justiça na Escola (PCJE) para realizar palestra nesta quarta-feira (17) para estudantes da rede pública

    O tema, violência doméstica, provoca discussões intensas e se tornou uma questão emergencial para todos, pois ainda é grande o número de mulheres agredidas por seus companheiros ou por outras pessoas de seu convívio. Poliana explica, na entrevista a seguir, mais um pouco sobre o seu trabalho no acompanhamento de casos de violência doméstica. Fala também sobre como o assunto pode ser debatido com a sociedade, em especial, com adolescentes.

    O PCJE é um dos eixos de trabalho da Escola Superior da Magistratura do Estado de Alagoas (Esmal).  

1- Por que motivo é importante discutir o tema da violência doméstica com adolescentes?

É de suma importância debater o tema da violência doméstica seja qual for a faixa etária, mas tratar deste assunto com crianças e adolescentes sem dúvida é fundamental se quisermos de fato diminuir os altos índices no nosso país. Infelizmente a violência é banalizada e muitas vezes essas crianças e adolescentes convivem diariamente com essa realidade. Elas precisam compreender que mesmo que a violência seja frequente em seu lar ela não deve ser aceita e não deve ser tolerada. 

É necessário que se quebre o ciclo da violência, que eles reconheçam os mecanismos de denúncia, que saibam como se proteger, de modo que não sofram no futuro as consequências dessa dinâmica familiar que prejudica o desenvolvimento e acarreta tantos transtornos em nossa sociedade.

2- Em 2015, de janeiro a outubro, a Central Ligue 180 realizou 634.862 atendimentos. Foram, em média, 63.486 atendimentos mensais e 2.116 diários. Essa quantidade foi 56,17% superior ao número de atendimentos realizados no mesmo período de 2014 (406.515). Qual a sua avaliação sobre esse dado? Isso significa alguma mudança da mentalidade das mulheres, que passaram a confiar mais no sistema de denúncias?

O aumento do número de atendimentos na verdade demonstra que algumas transformações estão acontecendo na sociedade. Não significa que houve um aumento dos casos, mas sim que as mulheres estão adquirindo a capacidade de denunciar, elas estão perdendo a vergonha e o medo de denunciar e de buscar ajuda, estão rompendo o silêncio e isso é consequência do processo de empoderamento feminino. Elas estão reconhecendo que merecem viver uma vida sem violência e cada vez mais conhecem a Lei Maria da Penha, os mecanismos de Proteção e a Rede de apoio existente.

3- Que mecanismos existem atualmente para retirar a mulher de uma situação de risco quando ele está dentro de sua própria casa?

Existe em Maceió um local de acolhimento para mulheres vítimas de violência, a Casa Abrigo VIVA VIDA, que faz parte da Secretaria Municipal de Assistência Social. Trata-se de um serviço de proteção seguro e sigiloso, que oferta apoio psicológico, jurídico e social às mulheres em situação de violência doméstica. O público alvo são as mulheres maceioenses que tenham formalizado denúncia com base na Lei Maria da Penha e possuam o Boletim de Ocorrência.

O Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) é um dos membros da rede de atendimento a mulheres vítimas de violência.

Entre as demandas atendidas pelo Creas, uma delas é o atendimento psicossocial e jurídico às mulheres em situações de violência e suas famílias. O Creas é responsável pela oferta de orientação e apoio especializado e continuado de assistência social, de modo as mulheres sejam auxiliadas na superação da violação sofrida e no resgate de sua autoestima.  Além disso, o Creas trabalha em articulação com a Rede, encaminhando, por exemplo, para serviços de saúde para que realizem acompanhamento psicológico, algo fundamental neste processo.

4- Qual a importância do apoio psicológico nestas situações? 

Sem dúvida o apoio psicológico é de suma importância nos casos de violência doméstica, visto que esta é percebida como um problema de saúde pública diante de suas consequências devastadoras, que vão muito além de marcas físicas. Geram prejuízos emocionais, influenciando no modo como essas mulheres se relacionam com as pessoas a sua volta, podendo gerar perda da autoestima, medo, insegurança, depressão, distúrbios do sono, doença mental, comportamentos autodestrutivos etc. 

O acompanhamento psicológico contribui de maneira fundamental para a superação da violência sofrida, colaborando para que as vítimas encontrem mecanismos internos para mudar a realidade vivida, resgatando sua autoestima e autonomia.

5- Como a Lei Maria da Penha auxiliou o acolhimento às mulheres agredidas? Quais são os limites da Lei?

A Lei Maria da Penha completou este ano 10 anos de vigência e sem dúvida trouxe visibilidade com relação à violência de gênero, avançamos bastante com a nova legislação. No entanto é necessário avançar nas políticas públicas que objetivem a proteção das vítimas de violência. Precisamos de mais delegacias especializadas, de mais profissionais capacitados para o atendimento, que não revitimizem (a mulher agredida). É necessário que seja de fato garantido o cumprimento da Lei, com mais efetividade com relação às medidas protetivas. Devemos debater o assunto mais e mais nas escolas, comunidades, espaços públicos, de modo que tais práticas sejam coibidas e não mais toleradas.

6- De acordo com a ONU, cerca de 70% das mulheres já sofreram algum tipo de violência no decorrer de suas vidas. Como a sociedade, principalmente os cidadãos em idade escolar, que estão em formação, pode ajudar na tomada da consciência feminina de que não é normal sofrer assédio sexual, moral, intelectual?

Sem dúvida através da denúncia. É necessário estimular esses jovens a não se omitirem frente à violência assim estarão contribuindo para transformar positivamente a realidade das violências de gênero. 

É necessário que o tema esteja sempre em foco nas escolas, que ocorra o investimento em atividades que aprofundem o debate, que estimulem a denúncia e que possam coibir todas as formas de violência.

Carolina Amâncio - Esmal TJ/AL

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